Artigos de maio 26th, 2020

Artigo sobre meditação contra o envelhecimento

Muito interessante esse texto tão atual que dentre outras coisas aborda o fato de quem medita ter uma tendência a reduzir a “esquiva experiencial” (a tendência natural para suprimir memórias dolorosas, pensamentos, emoções e sensações, em um esforço destinado a obter alívio temporário de um desconforto psicológico). E sabemos que distanciar-se mentalmente do problema pode acarretar consequências negativas no longo prazo.

Meditação contra o envelhecimento
Eduardo Araia – 04/03/2020

Já se sabe há algumas décadas que a meditação traz vários benefícios para a mente e o corpo de seus praticantes. Nos anos 2000, foi descoberta outra qualidade: retardar o envelhecimento. As experiências científicas nesse sentido ainda carecem de dados mais robustos (em geral, o número de participantes é estatisticamente pequeno), mas têm consolidado essa conclusão.Uma das linhas de pesquisa é a desenvolvida por Sara Lazar, da Escola de Medicina da Universidade Harvard (EUA). Utilizando imagens do cérebro, ela constatou que a massa cinzenta dos meditadores aumenta em regiões específicas do cérebro, enquanto em não praticantes ela em geral diminui. De acordo com Sara, a espessura do córtex cerebral de meditadores experientes de 50 anos de idade é semelhante à de não praticantes com 25 anos.

Outra área promissora é a que estuda os telômeros, as capas de DNA e proteínas que protegem as extremidades de cada cromossomo na divisão celular. Em circunstâncias normais, eles ficam um pouco mais curtos a cada vez que o cromossomo se divide, até chegar a um ponto em que a célula não pode mais se replicar. Os estudos mostram que o encurtamento dos telômeros está associado ao surgimento de diversos problemas ligados à idade, como moléstias cardiovasculares, diabete tipo 2, hipertensão e demência.Hábitos pessoais podem acelerar o encolhimento dos telômeros, como o sedentarismo, a falta de sono, a má alimentação e o consumo de cigarros e álcool. O estresse tem lugar de destaque nessa lista, como mostrou uma pesquisa realizada em 2004 pelas americanas Elizabeth Blackburn (prêmio Nobel de Medicina em 2009) e Elissa Epel, então aluna de pós-doutorado da Universidade da Califórnia em São Francisco.

O trabalho originou vários estudos, entre os quais alguns que se dedicaram a avaliar a influência da meditação – reconhecidamente eficiente no tratamento do estresse – nos telômeros. Um deles mostrou que o comprimento dos telômeros do sistema imunológico de pessoas que haviam feito um retiro de meditação intensiva havia aumentado. Outro revelou que, depois de fazerem um retiro semelhante, os participantes apresentaram aumento de atividade da telomerase (enzima que reconstrói os telômeros) e redução na atividade de genes envolvidos nas respostas aos processos inflamatórios e ao estresse.

Comprimento maior

Um trabalho realizado na Universidade de Saragoça (Espanha) e publicado em fevereiro de 2016 na revista “Mindfulness” reforça a argumentação. De acordo com ele, praticantes de meditação zen experientes possuem telômeros mais longos, em média, do que indivíduos de idade e estilo de vida semelhantes.

Os pesquisadores reuniram 20 pessoas que praticavam meditação zen por pelo menos uma hora por dia durante no mínimo dez anos, 20 pessoas que nunca haviam meditado e as correlacionaram por fatores como idade, sexo e estilo de vida (por exemplo, dieta, exercícios físicos, consumo de tabaco ou álcool). Todos os participantes passaram por testes psicológicos e fizeram exames de sangue, a fim de que o comprimento dos telômeros nas células do sistema imunológico fosse medido.

Os dados coletados revelaram que os telômeros dos meditadores estavam em média 10% mais longos na comparação com o grupo de controle. Os pesquisadores recorreram então a uma técnica estatística para detectar quais fatores poderiam estar diretamente relacionados a esse suposto retardamento do envelhecimento celular. Apareceram várias características psicológicas, como satisfação com a vida, felicidade subjetiva e maior habilidade de chegar ao estado de consciência plena e manter-se. Mas três fatores foram vistos como fundamentais pelos cientistas: a idade menor, um elevado nível de autocompaixão e a ausência de “esquiva experiencial” (a tendência natural para suprimir memórias dolorosas, pensamentos, emoções e sensações, em um esforço destinado a obter alívio temporário de um desconforto psicológico).

O último item, em especial, sugere que distanciar-se mentalmente do problema pode acarretar consequências negativas no longo prazo. Esses resultados favorecem o aprofundamento das pesquisas no setor. E, naturalmente, fortalecem a importância da meditação – um remédio totalmente gratuito, que possui múltiplas capacidades e não apresenta nenhum efeito colateral.